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Ciência dos hábitos

Quanto tempo leva para formar um hábito? Leia a curva, não o prazo

Formar um hábito leva uns dois meses para uma pessoa típica: no estudo mais conhecido, um comportamento diário levou em mediana 66 dias para ficar automático, e as pessoas variaram de 18 a 254 dias. A resposta mais útil é o formato da curva, porque a maior parte do ganho vem nas primeiras semanas e o resto chega devagar.

Publicado em 8 min de leituraCarlos Ricardo Ziegler

A diferença entre as pessoas é maior do que a própria média, e isso torna “quantos dias?” uma pergunta meio torta. Os estudos que acompanham a formação de hábitos dia a dia encontram sempre o mesmo padrão: ganhos grandes no começo, ganhos menores depois, e então um platô. Saber em que ponto da curva você está diz mais do que contar quantos dias se passaram.

De onde veio a regra dos 21 dias

Os 21 dias vêm de Maxwell Maltz, um cirurgião plástico que escreveu o livro de autoajuda Psycho-Cybernetics em 1960. No prefácio, ele contou que os pacientes levavam umas três semanas para se acostumar com o rosto novo, e que quem passava por uma amputação sentia o membro fantasma por mais ou menos o mesmo tempo. A conclusão dele era sobre autoimagem, e vinha com ressalva (Gardner & Meisel, 2012):

Costuma ser necessário um mínimo de cerca de 21 dias para produzir qualquer mudança perceptível numa imagem mental.

Maxwell Maltz, Psycho-Cybernetics (1960), tradução livre

Duas coisas se perderam no caminho até a prateleira de autoajuda. Maltz escreveu “um mínimo de cerca de”, e estava descrevendo o processo de se acostumar com algo, que a psicologia chama de habituação. Aprender a fazer algo sem pensar é outro processo. Os pesquisadores da UCL que rastrearam o mito acham que as duas ideias simplesmente se fundiram de tanto a frase ser repetida.

O que o estudo dos 66 dias mediu

O número que todo mundo cita hoje vem de Lally et al., 2010, publicado no European Journal of Social Psychology. 96 voluntários escolheram um comportamento de comer, beber ou se mexer e o fizeram uma vez por dia no mesmo contexto, por exemplo “depois do café da manhã”, durante 12 semanas. Todo dia registravam se tinham feito e respondiam um questionário curto sobre o quanto aquilo parecia automático.

82 pessoas deram dados suficientes para análise. Os pesquisadores ajustaram uma curva às notas de automaticidade de cada pessoa ao longo dos 84 dias. O modelo se ajustou para 62 pessoas, e bem para 39. Nesse grupo, o tempo para chegar a 95% do próprio platô teve mediana de 66 dias. A pessoa mais rápida chegou lá em 18 dias. A mais lenta ainda não tinha atingido o platô quando o estudo acabou, e a projeção era de uns 254 (Gardner & Meisel, 2012).

66 diasTempo mediano para um comportamento diário chegar a 95% do seu platô de automaticidade em Lally et al. (2010). Os tempos individuais foram de 18 a 254 dias.

Outro resultado do mesmo estudo merece mais atenção do que recebe: perder uma oportunidade de fazer o comportamento não afetou de forma relevante a formação do hábito. Um deslize não te manda de volta ao primeiro dia. Tem mais sobre isso em o que um dia perdido faz com a sequência.

O que “automático” quer dizer nessa pesquisa

Aqui, hábito é um comportamento que um contexto conhecido dispara sozinho. Gardner et al., 2012 definem hábitos como padrões de comportamento, aprendidos num contexto, que são acionados automaticamente quando a pessoa encontra esse contexto. Automaticidade é a parte que dá para sentir: o comportamento começa antes de você decidir fazê-lo.

Os pesquisadores medem isso perguntando. O Self-Report Habit Index tem 12 itens, e a equipe de Lally usou os que tratam de automaticidade. Gardner e colegas depois reduziram tudo a quatro afirmações, o Self-Report Behavioural Automaticity Index. Para um comportamento X, você avalia o quanto concorda que ele é algo que…

  • eu faço automaticamente
  • eu faço sem precisar lembrar conscientemente
  • eu faço sem pensar
  • eu começo a fazer antes de perceber que estou fazendo

Duas pessoas podem “formar o hábito” e terminar em lugares diferentes. Nos dados de Lally, a automaticidade de algumas pessoas estabilizou abaixo da metade da escala de 42 pontos, enquanto outras chegaram ao topo (Gardner & Meisel, 2012). O platô diz que os ganhos pararam. Não diz que o hábito ficou forte.

A curva do hábito, semana a semana

A curva é o que há de mais prático nessa pesquisa. A equipe de Lally modelou a automaticidade como uma curva assintótica: cada repetição acrescenta um pouco menos que a anterior. Se você desenha essa curva com os números da mediana, partindo do zero e chegando a 95% do platô no dia 66, a conta fica assim:

  • Fim da semana 1: cerca de 27% do caminho até o seu platô
  • Fim da semana 2: cerca de 47%
  • Dia 21: cerca de 61%
  • Fim da semana 4: cerca de 72%
  • Fim da semana 6: cerca de 85%
  • Dia 66: 95%, e daí em diante cada semana extra soma um ou dois pontos

Os ganhos de cada semana contam a história melhor do que os totais: uns 27 pontos na primeira semana, 20 na segunda, 14 na terceira, 11 na quarta e, lá pela oitava, uns 3. Notas reais oscilam mais do que uma linha lisa, e a sua curva pode ser mais íngreme ou mais achatada. O formato ainda explica uma sensação comum. As duas primeiras semanas parecem progresso evidente, e da quinta à nona parece que nada acontece, embora você continue avançando.

Curvas ilustrativas de formação de hábito: participante mais rápido, mediano e mais lentoTrês curvas assintóticas de automaticidade, como porcentagem do platô de cada pessoa, ao longo de 260 dias. A mais rápida chega a 95% no dia 18, a mediana no dia 66, a mais lenta no dia 254. Uma linha tracejada marca o dia 21, quando a curva mediana está em cerca de 61%.AUTOMATICIDADE, % DO SEU PRÓPRIO PLATÔ050%95%21 DIAS: A IDEIA POPULARMEDIANA: 66 DIAS61%0306090120150180210240DIAS DE REPETIÇÃO DIÁRIAVariação em Lally et al. (2010): de 18 a 254 diasCURVASMais rápida: 18 diasMediana: 66 diasMais lenta: 254 dias
Curvas ilustrativas no formato que Lally et al. (2010) ajustaram a cada pessoa. Os dias até 95% (18, 66 e 254) são do estudo; 254 foi uma projeção além dos 84 dias observados.

Provavelmente é também por isso que a ideia dos 21 dias sobrevive. Na curva mediana, três semanas é quando a mudança fica mais fácil de notar, porque você acabou de passar pelo trecho mais íngreme. Ainda falta cerca de 40% da subida.

Por que alguns hábitos demoram mais

A complexidade é a suspeita óbvia. No estudo de Lally, comportamentos simples como beber um copo de água chegaram ao pico antes de outros mais trabalhosos, como fazer 50 abdominais (Gardner, Lally & Wardle, 2012). Só que a diferença entre os grupos de comer, beber e exercício não foi estatisticamente significativa, e com 39 curvas bem ajustadas o estudo era pequeno demais para resolver a questão (Singh et al., 2024).

A constância também pesa. Nos dados de Lally, quem fez o comportamento com mais regularidade gerou curvas que se ajustaram melhor. Um ensaio de 2021 de Keller e colegas com 192 adultos mostrou que executar o plano repetidamente foi um preditor importante da automaticidade. Amarrar um comportamento alimentar a uma rotina diária funcionou tão bem quanto amarrá-lo a um horário. Planos “se… então” são uma forma de deixar essa ligação explícita.

O horário do dia pode ter um papel. Num estudo com 48 estudantes que faziam um alongamento ao acordar ou antes de dormir, as curvas extrapoladas indicaram automaticidade em cerca de 106 dias para o grupo da manhã e 154 para o da noite, e os autores ligaram a diferença ao ritmo diário do cortisol. É um estudo pequeno e não diz qual horário serve para você, mas combina com um padrão mais amplo que aparece em hábitos de manhã ou à noite.

Dias até a formação do hábito nos quatro estudos que mediram issoLally et al. 2010: mediana de 66 dias, de 18 a 254. Keller et al. 2021: mediana de 59 dias, de 4 a 335. Fournier et al. 2017: média de 106 dias para alongamento de manhã e 154 dias à noite. Uma linha nos 21 dias fica à esquerda de todos os valores.21 DIAS: A IDEIA POPULARLally et al., 2010Comer, beber ou se mexer1825466Keller et al., 2021Um hábito alimentar433559Fournier et al., 2017Alongamento ao acordar106Fournier et al., 2017Alongamento antes de dormir154050100150200250300350DIAS ATÉ FORMAR O HÁBITOLEGENDAMedianaMédiaVariação entre pessoas
Valores conforme Singh et al. (2024). A variação de Keller cobre os participantes que formaram o hábito. As médias de Fournier foram extrapoladas de 90 dias de dados.

Quanto tempo leva para formar um hábito segundo os estudos?

A revisão sistemática de 2024 de Singh et al., na revista Healthcare, reuniu 20 estudos com 2.601 participantes, sobre comportamentos como atividade física, alimentação, beber água e usar fio dental. As notas de hábito subiram claramente do antes para o depois das intervenções. Só quatro estudos informaram quanto tempo a formação levou: medianas de 59 a 66 dias, médias de 106 a 154 dias e tempos individuais de 4 a 335 dias.

A distância entre medianas e médias diz algo. Algumas pessoas lentas puxam a média para cima, então a pessoa típica é mais rápida do que a média, mas ainda muito mais lenta do que 21 dias. O conselho prático dos autores é esperar “pelo menos dois a cinco meses” para a automaticidade. Eles também viram que comportamentos simples e repetitivos, com gatilhos claros, como fio dental ou beber água, tiveram efeitos maiores do que alimentação saudável ou exercício, e ressalvaram que isso pode refletir as intervenções, e não os comportamentos.

O que a pesquisa não diz

  • As amostras são pequenas. A mediana de 66 dias se apoia em 39 pessoas cujas curvas se ajustaram bem, de 96 que começaram.
  • Tudo é autorrelato. Automaticidade é o quanto o comportamento parece automático para quem o faz, e dar essa nota todo dia pode mudar a própria experiência.
  • Tempos longos são projeções. Lally e Keller acompanharam as pessoas por 84 dias e Fournier por 90, então valores como 254 ou 335 dias vêm de estender as curvas além dos dados.
  • Nem todo mundo chega lá. No ensaio de Keller, só 23% dos participantes atingiram o critério de hábito formado definido pelos pesquisadores (Singh et al., 2024).
  • São comportamentos de saúde que as pessoas escolheram começar. A revisão excluiu estudos sobre parar um comportamento, como fumar, então nenhum desses números diz quanto tempo leva para largar um hábito.
  • A qualidade é desigual. A revisão classificou 11 dos seus 20 estudos como de alto risco de viés.

Como saber em que ponto da curva você está

Você não tem como saber o seu número de antemão, mas dá para acompanhar a sua curva tomando forma. Uma rotina simples, alinhada com a pesquisa:

  1. Amarre o comportamento a um gatilho estável: um lugar, um horário ou algo que você já faz todo dia. Use sempre o mesmo gatilho.
  2. Uma vez por semana, dê nota às quatro afirmações acima numa escala fixa, por exemplo de 1 (discordo) a 7 (concordo), e anote a média.
  3. Compare semana com semana. No começo a nota deve saltar; depois, subir devagar. Quando parar de mexer por duas ou três semanas, você provavelmente chegou ao seu platô.
  4. Se o platô ficou baixo, simplifique o comportamento ou deixe o gatilho mais constante antes de concluir que só falta tempo. Nesses estudos, comportamentos simples presos a um gatilho tenderam a ficar automáticos mais cedo.
  5. Se perder um dia, faça no dia seguinte. Nos dados de Lally, uma oportunidade perdida não fez diferença relevante.

Planeje uns dois meses e espere que o segundo pareça mais lento que o primeiro. Se quiser saber se registrar os hábitos ajuda por si só, as evidências estão em registrar hábitos funciona?

Perguntas frequentes

21 dias bastam para formar um hábito?

Em geral, não. Os 21 dias vêm de um livro de autoajuda de 1960 sobre autoimagem, não de pesquisa sobre hábitos. Em Lally et al. (2010), o participante mais rápido levou 18 dias e a mediana foi 66.

São 66 dias para todo mundo?

Não. 66 dias é a mediana de um estudo, baseada em 39 pessoas cujos dados se ajustaram bem ao modelo, e os tempos individuais foram de 18 a 254 dias. Uma revisão de 2024 sugere contar com dois a cinco meses.

Perder um dia zera a formação do hábito?

Não. Em Lally et al. (2010), perder uma oportunidade não afetou de forma relevante a formação do hábito. Pausas mais longas não foram estudadas com o mesmo detalhe.

Como sei que o hábito se formou?

Quando o comportamento começa sem você decidir e as suas notas semanais de automaticidade param de subir. O sinal é o platô, não um número de dias.

Fontes

Os números do texto vêm destes estudos e páginas oficiais.

  1. Lally, P., van Jaarsveld, C. H. M., Potts, H. W. W. & Wardle, J. (2010). How are habits formed: Modelling habit formation in the real world. European Journal of Social Psychology, 40(6), 998–1009. doi:10.1002/ejsp.674
  2. Singh, B., Murphy, A., Maher, C. & Smith, A. E. (2024). Time to Form a Habit: A Systematic Review and Meta-Analysis of Health Behaviour Habit Formation and Its Determinants. Healthcare, 12(23), 2488. doi:10.3390/healthcare12232488
  3. Gardner, B. & Meisel, S. (2012). Busting the 21 days habit formation myth. UCL Health Behaviour Research Centre blog, 29 June 2012.
  4. Gardner, B., Lally, P. & Wardle, J. (2012). Making health habitual: the psychology of ‘habit-formation’ and general practice. British Journal of General Practice, 62(605), 664–666. doi:10.3399/bjgp12X659466
  5. Gardner, B., Abraham, C., Lally, P. & de Bruijn, G.-J. (2012). Towards parsimony in habit measurement: Testing the convergent and predictive validity of an automaticity subscale of the Self-Report Habit Index. International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity, 9, 102.
  6. Keller, J., Kwasnicka, D., Klaiber, P., Sichert, L., Lally, P. & Fleig, L. (2021). Habit formation following routine-based versus time-based cue planning: A randomized controlled trial. British Journal of Health Psychology, 26(3), 807–824. doi:10.1111/bjhp.12504
  7. Fournier, M., d’Arripe-Longueville, F., Rovere, C., Easthope, C. S., Schwabe, L., El Methni, J. & Radel, R. (2017). Effects of circadian cortisol on the development of a health habit. Health Psychology, 36(11), 1059–1064. doi:10.1037/hea0000510