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Sequências

Perdi a sequência: o que um dia perdido faz com o seu hábito

Se você perdeu um dia e quebrou a sequência, o hábito em si quase certamente está bem: no estudo mais conhecido sobre formação de hábitos, perder uma única oportunidade não alterou o processo de forma relevante. O risco de verdade é a sequência quebrada e aquela sensação de “agora já era” que transforma um dia perdido em uma semana perdida.

Publicado em 8 min de leituraCarlos Ricardo Ziegler

O que quebra é o número na tela, e esse número pesa mais do que deveria. Pesquisadores já viram gente tratar um recorde quebrado como motivo para largar tudo: pessoas de dieta, gente tentando parar de fumar, funcionários num desafio de passos e até participantes de um joguinho de palavras. A mesma pesquisa mostra que detalhes de design, como uma pequena folga embutida ou um jeito de consertar a falha, mudam a reação das pessoas.

Perdi a sequência: o hábito está bem, a sequência é que é frágil

Em 2010, Phillippa Lally e colegas pediram a 96 voluntários que escolhessem um comportamento de comer, beber ou se exercitar e o repetissem todo dia no mesmo contexto, como “depois do café da manhã”, por 12 semanas (Lally et al., 2010). Todo dia eles avaliavam o quanto aquilo parecia automático. A automaticidade subia rápido no começo e depois se estabilizava, e chegar a 95% do platô de cada pessoa levou de 18 a 254 dias. Uma frase do resumo interessa aqui: perder uma oportunidade de realizar o comportamento “não afetou de forma relevante o processo de formação do hábito”.

Vale lembrar a escala. Os dados aproveitáveis vieram de 82 pessoas, a curva se ajustou bem em só 39 delas, e a automaticidade era autorrelatada. Ainda assim, é a melhor evidência do mundo real sobre o assunto, e ela aponta numa direção: a força do hábito cresce aos poucos e não some depois de uma falha. Quanto tempo leva essa subida é outro assunto, tratado em quanto tempo leva para formar um hábito.

A sequência funciona de outro jeito. Ela conta dias consecutivos, então um único zero apaga tudo, não importa quanto do hábito você já construiu. O dia 40 de um hábito com uma falha no dia 39 aparece como dia 1 num contador rígido. Seu comportamento quase não mudou, mas a imagem dele mudou, e os estudos abaixo sugerem que as pessoas reagem à imagem.

Por que a sequência quebrada dá vontade de desistir

A psicologia tem um nome bem direto para isso. Num estudo de 1975, C. Peter Herman e Deborah Mack deram a pessoas de dieta e a pessoas sem dieta uma “pré-carga” de comida de tamanhos diferentes e depois mediram quanto mais elas comiam (Herman & Mack, 1975). Quem não fazia dieta comeu menos depois de uma pré-carga maior, como seria de esperar. Quem fazia dieta fez o contrário e comeu mais. Herman e Janet Polivy depois chamaram isso de “efeito dane-se” (o “what the hell effect”), como se a pessoa pensasse: minha dieta de hoje já foi para o espaço, então é melhor comer e aproveitar (Polivy & Herman, 2020).

A ideia logo saiu do campo da comida. Wendy Cochran e Abraham Tesser escreveram sobre o “what the hell effect” em termos de metas e desempenho, num capítulo de 1996 sobre proximidade e enquadramento de metas (Cochran & Tesser, 1996). A pesquisa sobre dependência tem sua própria versão. O modelo de prevenção de recaída de Alan Marlatt e Judith Gordon descreve um efeito de violação da abstinência: depois do primeiro lapso, culpa, autocrítica e perda de confiança empurrariam a pessoa de um deslize isolado para uma recaída completa.

Quando esse modelo foi testado de perto, o quadro ficou mais confuso. Thomas Kirchner, Saul Shiffman e Paul Wileyto acompanharam 203 pessoas tentando parar de fumar ao longo de 1.001 lapsos, registrados quase em tempo real (Kirchner et al., 2012). As reações ao primeiro lapso não previram a recaída. Nos lapsos seguintes, uma queda de confiança depois do deslize esteve ligada a chegar mais cedo ao próximo lapso, enquanto se culpar, ao contrário do que a teoria previa, protegeu um pouco.

Um contador de sequência não é uma dieta nem um cigarro, e o que está em jogo não se compara. A semelhança é mais estreita: quando a regra é tudo ou nada, uma única falha pode fazer a meta inteira parecer perdida, e é com base nessa sensação que as pessoas agem.

O que os estudos sobre sequências encontraram

A evidência mais direta vem de Jackie Silverman e Alixandra Barasch, que fizeram sete estudos sobre como sequências registradas afetam o que as pessoas fazem em seguida (Silverman & Barasch, 2023). Elas definem sequência como o mesmo comportamento feito três ou mais vezes seguidas.

Num estudo de campo com o programa de bem-estar de uma universidade, 980 funcionários entraram num desafio de 30 dias para andar pelo menos 7.000 passos por dia, com um app que mostrava a sequência atual. As pessoas tinham mais chance de chegar aos 7.000 passos num dia que podia estender uma sequência intacta do que num dia depois de uma sequência quebrada. Esses dados são correlacionais, então as autoras passaram a experimentos em que todo mundo fazia exatamente a mesma coisa e só o registro mudava. Num deles, 601 participantes online fizeram quatro exercícios de força de verdade. Uns viam um registro de quatro seguidos, outros viam a sequência interrompida. Diante de mais um exercício, 66% do grupo com sequência intacta escolheu outro exercício de força, contra 58% do grupo com sequência quebrada.

O ponto que merece destaque: o efeito não dependia do que as pessoas tinham feito, só de como o registro mostrava aquilo. A explicação das autoras é que manter viva uma sequência registrada vira uma meta em si. Daí saem dois resultados. A queda depois da quebra era maior quando a pessoa se culpava por ela. E diminuía quando dava para consertar a sequência: no último estudo, 93% de quem tinha sequência intacta continuou no mesmo jogo, contra 69% com sequência quebrada e 85% quando a pessoa sabia que continuar restauraria a sequência.

Sequência rígida ou sequência que perdoa

Uma sequência rígida trata toda falha do mesmo jeito: volta para zero. Uma sequência que perdoa guarda uma pequena margem, então uma falha isolada não apaga a contagem. Aqui estão as mesmas três semanas de um hábito diário, com falhas no dia 9 e no dia 16, contadas dos dois jeitos.

As mesmas três semanas, contadas de dois jeitosDuas linhas de 21 dias com falhas no dia 9 e no dia 16. A sequência rígida volta a zero duas vezes e termina em 5; a que perdoa cobre as duas falhas com dias de graça e termina em 21.SEMANA 1SEMANA 2SEMANA 3Sequência rígidaQualquer dia perdido zera a contagem123456780123456012345Termina as três semanas em 5. Maior sequência: 8 dias.Sequência que perdoa (dia de graça)+1 dia de graça a cada 7 dias concluídos, usado numa falha isolada123456789101112131415161718192021+1+1Termina em 21. Dias de graça ganhos nos dias 7 e 15, os dois usados.LEGENDAFeitoPerdidoCoberto por dia de graça
Exemplo ilustrativo. O número em cada quadrado é a sequência exibida no fim daquele dia. A linha que perdoa segue a regra do Kada: um dia de graça a cada 7 dias concluídos, até 2 guardados, cobrindo um único dia perdido entre dias concluídos.

As duas linhas descrevem 19 dias concluídos em 21. Uma termina em 5 e a outra em 21. Se as pessoas reagem mais ao registro do que ao que de fato fizeram, como Silverman e Barasch encontraram, essa diferença pesa mais do que parece.

A folga também já foi testada diretamente. Marissa Sharif e Suzanne Shu deram a alunos e funcionários de uma universidade americana uma meta diária de passos personalizada por quatro semanas (Sharif & Shu, 2021). Um grupo tinha de bater a meta 7 dias por semana, outro 5 dias por semana, e outros 7 dias mais dois “pulos de emergência” por semana (ou oito por mês) que podiam usar depois de uma falha, o que preenchia aquele dia no gráfico de progresso. No dia seguinte a uma falha, quem tinha a meta rígida de 7 dias bateu a meta 37% das vezes. Com dois pulos de emergência por semana, foram 55%. Nas quatro semanas, o grupo com pulos semanais bateu a meta em 4,0 dias por semana, contra 2,8 no grupo rígido e 3,1 na meta simples de 5 dias, embora a meta de 5 dias permitisse exatamente o mesmo número de falhas.

A explicação delas é a sensação de progresso. Usar a reserva fazia a meta continuar parecendo no caminho certo, e as pessoas seguiam comprometidas. Quem estava nos grupos com reserva, falhou e não usou (ou não pôde usar) a reserva persistiu mais ou menos como todo mundo, então o benefício veio de usá-la de fato.

O que as pessoas fizeram logo depois de uma falhaEm dois estudos, as pessoas continuaram mais vezes depois de uma falha quando havia como recuperá-la: 37% contra 55% e 48% em metas de passos com pulos de emergência, e 69% contra 85% numa sequência de jogo que podia ser consertada.Meta de passos: rígida vs 2 pulos de emergência/semanaSharif & Shu, 202137%55%Meta de passos: rígida vs 8 pulos de emergência/mêsSharif & Shu, 202137%48%Sequência de jogo: quebrada vs consertávelSilverman & Barasch, 202369%85%0%25%50%75%100%CONTINUOU LOGO APÓS A FALHASem como recuperar a falhaCom opção de recuperação
Valores reais de dois estudos com medidas diferentes. Metas de passos: proporção de dias após uma meta perdida em que a meta foi cumprida (estudo de campo, quatro semanas). Jogo: proporção que escolheu o mesmo jogo de novo após a sequência quebrada (experimento online, 601 pessoas). As linhas seguem a ordem do texto.

O maior teste de uma ideia parecida é um megaestudo com 61.293 clientes de uma rede de academias dos EUA, sorteados para 54 programas diferentes de quatro semanas (Milkman et al., 2021). O que funcionou melhor pagava um bônus minúsculo, de cerca de 9 centavos de dólar, por voltar à academia depois de faltar a um treino.

27%Mais idas semanais à academia com o melhor programa de um megaestudo com 61.293 pessoas, que recompensava voltar depois de faltar a um treino (Milkman et al., 2021).

Nenhum desses estudos testou um dia de graça dentro de um app de hábitos. Mas eles apontam na mesma direção: designs que tratam a falha como algo recuperável mantêm mais gente no caminho do que designs que tratam a falha como o fim.

Como recomeçar depois de quebrar a sequência

Se a sequência já se foi, a pesquisa sugere alguns passos concretos. Nenhum deles envolve um novo “dia 1” cheio de drama.

  1. Faça a próxima sessão agendada, nem que seja pequena. O dia depois da falha foi justamente onde o grupo de meta rígida no estudo de Sharif e Shu perdeu terreno. Uma caminhada mais curta ou duas páginas de um livro já mantêm a repetição andando.
  2. Olhe para o que atrapalhou em vez de dar um veredito sobre você. No estudo com fumantes, a queda de confiança depois de um lapso previu o próximo lapso mais cedo. Um obstáculo concreto, que dá para contornar com um plano, pesa menos na confiança do que uma conclusão genérica sobre a sua força de vontade.
  3. Decida a volta antes de precisar dela. Um plano como “se eu perder a caminhada da noite, caminho antes do trabalho na manhã seguinte” transforma a própria falha num gatilho. Mais sobre isso em planos se-então.
  4. Separe pausas planejadas de falhas. Doença, viagem ou um dia de descanso que você escolheu não são fracassos, então marque esses dias como o que são, de preferência com antecedência.
  5. Julgue o hábito pelo histórico mais longo. 19 dias em 21 são 90%, o que um calendário ou uma taxa de conclusão mostra e um contador zerado esconde. Se acompanhar hábitos ajuda ou não, a gente discute em registrar hábitos funciona?.
  6. Guarde o recomeço simbólico para uma pausa de verdade. Dai, Milkman e Riis viram que as pessoas encaram metas com mais frequência depois de marcos no calendário: na academia de uma universidade, a probabilidade de uma visita era 33,4% maior no começo de uma nova semana (Dai et al., 2014). Isso ajuda depois de duas semanas paradas. Depois de um único dia perdido, esperar a segunda-feira só acrescenta mais dias perdidos.

O que a pesquisa não diz

  • Não encontramos nenhum estudo que teste diretamente dias de graça em um app de hábitos. O mais próximo são pulos de emergência em metas de passos e o conserto de sequências num jogo, ambos em períodos curtos.
  • O estudo de campo de Silverman e Barasch é correlacional, e os experimentos usaram participantes online fazendo escolhas pequenas e de baixo risco: mais um exercício, mais uma rodada de um jogo.
  • O estudo de campo de Sharif e Shu envolveu 273 alunos e funcionários de uma única universidade, que contaram passos por quatro semanas e anotaram tudo numa planilha compartilhada.
  • As curvas de hábito de Lally se baseiam em automaticidade autorrelatada, com bom ajuste do modelo para 39 pessoas.
  • No megaestudo das academias, só 8% dos programas produziram uma mudança significativa que ainda era mensurável depois das quatro semanas.
  • A pesquisa sobre violação da abstinência vem da dependência química, onde o que está em jogo é muito diferente, e mesmo ali a evidência é mista.
  • Folga também pode ser usada demais. No desenho de Sharif e Shu, a meta de 7 dias continuava sendo a meta e os pulos eram para emergências. Na nossa leitura, uma margem que você planeja gastar toda semana é só uma meta mais baixa.

Perguntas frequentes

Preciso recomeçar do zero depois de perder um dia?

Não. No estudo de Lally, perder uma oportunidade não afetou de forma relevante a formação do hábito. Faça a próxima sessão normalmente; recomeçar do “dia 1” muda mais a aparência do registro do que o hábito.

Perder um dia estraga o hábito?

Não. O que atrapalha é uma série de falhas, e essa série muitas vezes começa quando a primeira falha é tratada como prova de que o esforço deu errado.

O que é o efeito “dane-se” (what the hell effect)?

É a tendência de abandonar uma meta inteira depois de quebrá-la uma vez, descrita pelos pesquisadores de dieta Herman e Polivy: “a dieta já foi para o espaço, então vou comer”. A mesma lógica de tudo ou nada pode aparecer depois de uma sequência quebrada.

O que é um dia de graça num app de hábitos?

Uma margem que cobre um dia perdido para a sequência não zerar. No Kada, você ganha um a cada 7 dias concluídos, pode guardar dois, e um deles cobre automaticamente um único dia perdido.

Fontes

Os números do texto vêm destes estudos e páginas oficiais.

  1. Lally P, van Jaarsveld CHM, Potts HWW, Wardle J. How are habits formed: Modelling habit formation in the real world. European Journal of Social Psychology 2010;40(6):998–1009. doi:10.1002/ejsp.674
  2. Herman CP, Mack D. Restrained and unrestrained eating. Journal of Personality 1975;43(4):647–660. doi:10.1111/j.1467-6494.1975.tb00727.x
  3. Polivy J, Herman CP. Overeating in Restrained and Unrestrained Eaters. Frontiers in Nutrition 2020;7:30. doi:10.3389/fnut.2020.00030
  4. Cochran W, Tesser A. The “What the Hell Effect”: Some Effects of Goal Proximity and Goal Framing on Performance. In: Martin LL, Tesser A (eds.), Striving and Feeling: Interactions Among Goals, Affect, and Self-regulation. Psychology Press, 1996.
  5. Kirchner TR, Shiffman S, Wileyto EP. Relapse dynamics during smoking cessation: recurrent abstinence violation effects and lapse-relapse progression. Journal of Abnormal Psychology 2012;121(1):187–197. doi:10.1037/a0024451
  6. Silverman J, Barasch A. On or Off Track: How (Broken) Streaks Affect Consumer Decisions. Journal of Consumer Research 2023;49(6):1095–1117. doi:10.1093/jcr/ucac029
  7. Sharif MA, Shu SB. Nudging persistence after failure through emergency reserves. Organizational Behavior and Human Decision Processes 2021;163:17–29. doi:10.1016/j.obhdp.2019.01.004
  8. Milkman KL, Gromet D, Ho H, et al. Megastudies improve the impact of applied behavioural science. Nature 2021;600:478–483. doi:10.1038/s41586-021-04128-4
  9. Dai H, Milkman KL, Riis J. The Fresh Start Effect: Temporal Landmarks Motivate Aspirational Behavior. Management Science 2014;60(10):2563–2582. doi:10.1287/mnsc.2014.1901